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Mercado de carbono: por que esse assunto pode chegar até a sua empresa

Equipe de RP
12 de set.
8 min de leitura

Atualizado: 26 de set.

Fala Empresário, tudo certo?


O mercado de carbono costuma ser associado a grandes indústrias, empresas de energia, projetos florestais e negociações internacionais. Para pequenos e médios empresários, especialmente aqueles que atuam em setores urbanos como comércio, serviços, transporte, alimentação, manutenção ou pequenas indústrias, o tema pode parecer distante da realidade cotidiana.


Essa percepção é compreensível, porque boa parte das discussões sobre carbono envolve conceitos técnicos, grandes volumes de emissão e regras que não atingem diretamente a maioria das empresas de menor porte. Ainda assim, alguns efeitos desse mercado já começam a aparecer de forma indireta em situações bastante comuns, como exigências de grandes clientes, critérios de fornecedores, linhas de financiamento, consumo de energia, uso de combustíveis e decisões sobre investimentos operacionais.


Entender os conceitos básicos ajuda a interpretar melhor essas situações quando elas surgirem.


O que é um crédito de carbono


Um crédito de carbono representa, de maneira simplificada, uma tonelada de dióxido de carbono equivalente, ou CO₂ e, que deixou de ser emitida ou foi removida da atmosfera. Para que essa redução ou remoção possa ser reconhecida como crédito, normalmente é necessário seguir metodologias específicas, realizar medições e passar por processos de verificação.


Isso significa que um crédito de carbono não é simplesmente uma declaração feita pela própria empresa. A geração desse ativo depende de critérios técnicos, documentação, monitoramento e, em muitos casos, auditoria independente.


Projetos de conservação florestal, reflorestamento, recuperação ambiental, geração de energia limpa, tratamento de resíduos e redução de emissões industriais são alguns exemplos de atividades que podem, dependendo das regras aplicáveis, gerar créditos de carbono.


Mercado voluntário e mercado regulado


O mercado de carbono pode ser dividido em dois grandes ambientes. O primeiro é o mercado voluntário, no qual empresas e organizações compram créditos por decisão própria, normalmente para atender metas internas, compromissos climáticos, exigências de investidores ou estratégias corporativas.


O segundo é o mercado regulado, criado por lei e estruturado por regras definidas pelo poder público. Nesse tipo de sistema, determinadas empresas ou setores passam a ter obrigações relacionadas às suas emissões e precisam acompanhar, reportar e, em alguns casos, compensar ou limitar o volume emitido.


No Brasil, a Lei nº 15.042, de 2024, instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa, conhecido como SBCE. Esse sistema criou a base legal para um mercado regulado de carbono no país e prevê instrumentos específicos para controle e negociação de emissões.


A implementação do sistema, contudo, é gradual. Ainda são necessárias regulamentações complementares para definir detalhes operacionais, setores abrangidos, critérios de monitoramento, formas de verificação e outros procedimentos.


Pequenas empresas estarão diretamente obrigadas?


Para muitas pequenas e médias empresas, a participação direta no mercado regulado não será o principal efeito desse novo cenário. A legislação brasileira estabelece parâmetros de emissão relativamente elevados para determinadas obrigações, o que faz com que grande parte das empresas urbanas de menor porte fique fora desse enquadramento direto.


Ainda assim, isso não significa que o tema seja irrelevante. O impacto pode ocorrer de maneira indireta, especialmente por meio das relações comerciais com empresas maiores.


Uma grande companhia sujeita a metas ambientais, exigências de investidores ou regras de reporte pode precisar levantar informações sobre as emissões geradas ao longo da sua cadeia de fornecedores. Nesse momento, pequenas empresas que prestam serviços ou fornecem produtos para essas organizações podem começar a receber solicitações de dados relacionados a energia, combustíveis, transporte, resíduos e outros aspectos da operação.


O que são Escopos 1, 2 e 3


Quando uma empresa faz um inventário de emissões, normalmente utiliza uma divisão conhecida como Escopos 1, 2 e 3.


O Escopo 1 reúne emissões diretas de fontes que estão sob controle da própria empresa. É o caso, por exemplo, do combustível utilizado em veículos próprios ou de emissões provenientes de determinados processos industriais.


O Escopo 2 está relacionado principalmente às emissões associadas à geração da energia elétrica consumida pela organização. Mesmo que a empresa não gere diretamente essa emissão, ela ocorre como consequência do consumo de eletricidade.


O Escopo 3 inclui outras emissões indiretas relacionadas à cadeia de valor. Nesse grupo podem entrar transporte contratado, fornecedores, viagens, resíduos, uso de produtos vendidos e diversas outras atividades que acontecem fora do controle direto da empresa.


Para uma pequena empresa, o Escopo 3 é especialmente relevante porque pode fazer com que uma exigência de uma grande organização seja repassada aos seus fornecedores.


Como essa exigência pode chegar ao fornecedor


Uma grande indústria pode conhecer bem o consumo de energia da própria fábrica, o combustível utilizado em seus veículos e as emissões geradas por seus processos. No entanto, para compreender sua pegada de carbono de forma mais ampla, ela também pode precisar de informações sobre os serviços e produtos que compra de outras empresas.


Nesse contexto, uma transportadora pode ser questionada sobre consumo de diesel e quilometragem percorrida. Uma empresa de embalagens pode precisar apresentar dados sobre matérias-primas e resíduos. Uma prestadora de manutenção pode receber perguntas sobre deslocamentos, consumo de energia ou destinação de materiais.


Essas solicitações podem começar de forma simples, por meio de questionários ou processos de homologação, e depois passar a integrar critérios comerciais mais estruturados. A pequena empresa pode não estar diretamente obrigada a participar do mercado de carbono, mas pode ser afetada pelas exigências de quem está.


O que é um inventário de emissões


O inventário de emissões é uma forma organizada de identificar e calcular as principais fontes de emissão relacionadas às atividades da empresa. Para isso, são utilizados dados que muitas organizações já possuem em outros controles internos, como consumo de combustível, contas de energia, quilometragem, viagens, uso de gases refrigerantes e geração de resíduos.


Essas informações são convertidas em estimativas de emissões por meio de metodologias reconhecidas. O objetivo não é apenas gerar um número final, mas entender onde estão as principais fontes de emissão e quais áreas da operação merecem mais atenção.


Para pequenas empresas, essa análise pode começar de maneira proporcional à realidade do negócio. Nem sempre é necessário criar uma estrutura complexa de gestão climática. Em muitos casos, organizar dados de consumo já representa um primeiro passo importante para entender a operação.


Redução e compensação não são a mesma coisa


Outro ponto relevante é distinguir redução de emissões de compensação de emissões. A redução acontece quando a própria empresa altera sua operação para emitir menos. Isso pode ocorrer com equipamentos mais eficientes, menor consumo de combustível, melhor planejamento logístico, uso de energia renovável ou mudanças em processos produtivos.


A compensação acontece quando a empresa utiliza créditos de carbono relacionados a reduções ou remoções realizadas em outros projetos. Essa prática pode fazer parte de uma estratégia climática, principalmente para lidar com emissões que ainda não podem ser eliminadas com as tecnologias disponíveis.


Por esse motivo, comprar créditos de carbono não significa necessariamente que a própria operação deixou de emitir. O crédito representa uma redução ou remoção reconhecida em outro contexto.


Nem todos os créditos possuem as mesmas características


Embora cada crédito represente uma tonelada de CO₂e, existem diferenças importantes entre os projetos que geram esses ativos. O mercado avalia fatores como metodologia utilizada, qualidade da medição, risco de reversão, adicionalidade, impactos sociais, segurança jurídica e condições de implementação.


A adicionalidade, por exemplo, procura avaliar se aquela redução ou remoção realmente dependeu da existência do projeto. Se uma atividade já aconteceria naturalmente, sem qualquer incentivo relacionado ao mercado de carbono, seu valor como crédito pode ser questionado.


Também existem preocupações com projetos florestais, especialmente em relação à permanência do carbono armazenado, ao risco de incêndios ou desmatamento futuro e à relação com comunidades locais. Por isso, a qualidade e a integridade dos créditos passaram a receber atenção crescente.


Para muitas empresas, a gestão de carbono começa pela eficiência


Na prática, empresas menores provavelmente terão contato inicial com o tema por meio da gestão de custos e eficiência operacional.


Uma transportadora pode começar analisando consumo de combustível, manutenção da frota, rotas e deslocamentos. Uma pequena indústria pode observar o consumo energético de determinados equipamentos. Um supermercado pode acompanhar refrigeração e climatização. Um restaurante pode avaliar desperdício de alimentos, consumo de gás e energia.


Esses controles têm utilidade financeira independentemente da agenda climática. Reduzir desperdícios, consumo de energia ou uso de combustível pode melhorar custos operacionais e, ao mesmo tempo, reduzir emissões.


Esse é um ponto importante porque mostra que a gestão de carbono nem sempre precisa começar com a compra de créditos ou com a elaboração de uma estratégia ESG. Muitas vezes, começa pela análise de dados que já fazem parte da rotina financeira e operacional da empresa.


Tecnologia pode contribuir para reduzir consumo


Ferramentas digitais também podem ajudar nesse processo. Sistemas de roteirização podem reduzir deslocamentos desnecessários, sensores podem identificar equipamentos com consumo excessivo e softwares de gestão podem ajudar a comparar indicadores entre unidades ou períodos.


Em determinadas atividades, automação e inteligência artificial também podem ser utilizadas para prever demanda, melhorar logística, reduzir desperdícios e otimizar o uso de recursos.


Essas soluções não precisam ser adotadas com o objetivo exclusivo de reduzir emissões. O ganho ambiental pode ser uma consequência de melhorias de eficiência que já fazem sentido do ponto de vista econômico.


Pequenas empresas podem gerar créditos de carbono?


Em algumas situações, sim, mas isso depende muito do tipo de atividade e da estrutura do projeto.


Uma empresa não passa automaticamente a ter créditos de carbono porque reduziu sua conta de energia ou substituiu um equipamento antigo por outro mais eficiente. Para gerar créditos negociáveis, normalmente é necessário enquadrar o projeto em uma metodologia específica, estabelecer uma linha de base, comprovar a redução ou remoção de emissões e cumprir processos de verificação.


Esses procedimentos possuem custos e exigências técnicas. Por isso, nem todo projeto de redução de emissões será economicamente adequado para certificação.


Empresas ligadas a gestão de resíduos, geração de energia, recuperação ambiental, agricultura, tratamento de efluentes ou determinadas tecnologias limpas podem encontrar oportunidades mais concretas, mas a viabilidade precisa ser analisada caso a caso.


Relação entre carbono e financiamento


O tema climático também vem sendo incorporado por instituições financeiras e fundos de investimento. Algumas linhas de crédito são destinadas a projetos de eficiência energética, energia renovável, renovação de equipamentos, gestão de resíduos e outras iniciativas relacionadas à redução de emissões.


Isso não significa que todo crédito classificado como sustentável ou verde será automaticamente mais barato. Taxa de juros, prazo, garantias, carência, custos adicionais e requisitos de enquadramento continuam sendo elementos fundamentais na análise.


Para o empresário, o principal benefício de conhecer o tema é compreender melhor por que determinado financiamento possui critérios ambientais específicos e quais informações podem ser solicitadas durante o processo.


Como o assunto pode aparecer na rotina empresarial


O mercado de carbono pode chegar até uma pequena empresa sem que ela participe diretamente de uma negociação de créditos. É mais provável que o tema apareça por meio de exigências de clientes, processos de homologação, questionários de fornecedores, linhas de financiamento, projetos de eficiência ou decisões sobre frota, energia e consumo de insumos.


Por isso, antes de pensar em comprar ou vender créditos de carbono, pode ser mais útil entender quais atividades da empresa geram maior consumo de combustível e energia, quais clientes já começam a pedir informações ambientais e quais dados operacionais estão disponíveis.


Também pode ser relevante acompanhar se investimentos já planejados, como troca de equipamentos, modernização da frota ou geração própria de energia, possuem relação com linhas de financiamento específicas.


Conclusão


O mercado de carbono está se desenvolvendo no Brasil e ainda passa por um processo de regulamentação e implementação. Para muitas pequenas empresas, a participação direta nesse mercado provavelmente não será uma realidade imediata.


Ainda assim, a gestão de emissões pode chegar ao cotidiano dessas organizações por outros caminhos. Grandes clientes podem solicitar informações de fornecedores, instituições financeiras podem oferecer produtos associados a eficiência e descarbonização e decisões operacionais podem passar a ser analisadas também sob a perspectiva de consumo de energia e combustíveis.


Conhecer os conceitos básicos permite compreender melhor essas situações e avaliar cada uma delas de acordo com a realidade do negócio. O objetivo não precisa ser transformar a empresa em especialista em mercado de carbono, mas ter informação suficiente para reconhecer o tema quando ele começar a fazer parte de uma decisão comercial, financeira ou operacional.

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