top of page

Finanças sustentáveis: por que esse assunto pode aparecer no dia a dia da sua empresa

Equipe de RP
10 de set.
7 min de leitura

Atualizado: 26 de set.

Fala empresário, tudo certo?


Quando expressões como ESG, finanças sustentáveis, títulos verdes, crédito verde ou redução de emissões aparecem no noticiário econômico, é bastante natural associá-las a grandes empresas, bancos internacionais ou companhias negociadas na bolsa de valores.


Para uma pequena indústria, uma transportadora, um supermercado, uma oficina, um hotel, uma empresa de serviços ou um comércio local, o assunto pode parecer pertencente a outra realidade. Mas existe uma diferença importante entre participar diretamente do mercado de finanças sustentáveis e ser afetado por ele.


Uma pequena empresa provavelmente não emitirá um green bond no mercado internacional. Por outro lado, ela pode se deparar com uma linha de financiamento para instalação de painéis solares, receber de um grande cliente um questionário sobre práticas ambientais ou descobrir que determinado investimento em eficiência energética possui condições diferenciadas de crédito.


É nesse ponto que compreender o assunto passa a ser útil.


O que são, afinal, finanças sustentáveis?


De maneira simplificada, finanças sustentáveis são aquelas em que fatores ambientais, sociais e de governança também entram na análise sobre onde e como o dinheiro será aplicado.


Isso pode acontecer tanto na decisão de um grande investidor quanto na concessão de um financiamento por uma instituição financeira.


Em um crédito tradicional, aspectos como capacidade de pagamento, garantias, faturamento e histórico financeiro são determinantes. Nas finanças sustentáveis, podem entrar nessa equação também características do projeto que será financiado, seus impactos ambientais e sociais ou determinados compromissos assumidos pela empresa.


É daí que surgem termos cada vez mais frequentes no mercado, como green bonds, green loans, sustainability-linked loans, fundos ESG e financiamento climático.


Não significa necessariamente que o sistema financeiro tenha abandonado os critérios tradicionais de risco e retorno. Significa que novas variáveis passaram a integrar algumas decisões de investimento e crédito.


O dinheiro pode ser o mesmo. As condições e a finalidade podem mudar.


Uma maneira simples de compreender esse mercado é observar como uma empresa busca recursos.


Imagine, por exemplo, uma pequena indústria que pretende substituir equipamentos antigos por máquinas que consomem menos energia. Ela poderia financiar esse investimento por uma linha convencional. Mas também pode existir uma linha específica destinada à eficiência energética, com critérios próprios de enquadramento. Dependendo da instituição financeira, do programa e do projeto, as condições podem ser diferentes justamente porque aquele investimento está associado a uma redução de consumo ou de impacto ambiental.


O mesmo raciocínio pode aparecer na instalação de sistemas fotovoltaicos, modernização de sistemas de refrigeração, substituição de iluminação, tratamento de resíduos, reaproveitamento de água ou renovação de determinados equipamentos e veículos.


É nesse contexto que surge o chamado green loan, ou empréstimo verde.


O nome pode parecer distante da rotina empresarial, mas a operação, na prática, continua sendo bastante reconhecível: existe uma empresa que precisa investir, uma instituição que disponibiliza recursos e condições que precisam ser analisadas.


A diferença está principalmente na finalidade do financiamento e nos critérios utilizados para classificá-lo.


E o que são os famosos títulos verdes?


No mercado de capitais, empresas e outras organizações também podem captar recursos por meio da emissão de títulos. Quando os recursos de uma emissão são destinados a determinados projetos ambientais, podem surgir os chamados green bonds, ou títulos verdes.


Existem ainda outros modelos.


Nos Sustainability-Linked Bonds (SLBs), por exemplo, o dinheiro não precisa necessariamente financiar um projeto ambiental específico. A estrutura pode estar ligada ao cumprimento de determinados indicadores ou metas de sustentabilidade pela empresa.

Existem também títulos relacionados à transição climática, projetos ligados à água, iniciativas sociais e estruturas conhecidas como blended finance, nas quais recursos públicos, privados ou filantrópicos podem assumir diferentes parcelas de risco para viabilizar determinados projetos.


Para a maioria das pequenas empresas, provavelmente não será necessário conhecer os detalhes técnicos desses instrumentos.


O mais importante é entender o movimento que existe por trás deles: o mercado financeiro criou mecanismos para diferenciar determinados investimentos e atividades de acordo com características ambientais e sociais.


E esse movimento não termina nas grandes empresas.


Quando a exigência chega pela cadeia de fornecedores


Talvez esse seja um dos pontos em que empresas menores percebam o tema de maneira mais concreta.


Uma grande companhia pode possuir centenas ou milhares de fornecedores. Parte dos impactos ambientais relacionados à sua atividade não ocorre dentro de suas próprias instalações, mas ao longo dessa cadeia.


É o caso, por exemplo, do transporte de mercadorias, da fabricação de componentes, da produção de embalagens, da destinação de resíduos ou da contratação de diversos serviços.


No estudo das emissões de gases de efeito estufa, parte dessas emissões indiretas aparece no chamado Escopo 3. Na prática, isso pode fazer com que uma exigência inicialmente dirigida a uma grande companhia chegue também aos seus fornecedores.


Uma empresa que nunca havia discutido formalmente sustentabilidade pode, durante a renovação de um contrato, começar a receber perguntas como:

  • Como são destinados os resíduos da operação?

  • A empresa acompanha seu consumo de energia?

  • Existem práticas para redução de desperdícios?

  • Há informações sobre emissões relacionadas ao transporte?

  • Existem fornecedores envolvidos em atividades ambientalmente sensíveis?

  • A empresa possui determinadas políticas sociais ou ambientais?


Nem sempre essas perguntas terão consequência imediata. Mas, dependendo do setor e do contratante, elas podem gradualmente passar a fazer parte dos critérios utilizados na homologação ou avaliação de fornecedores.


Nesse momento, sustentabilidade deixa de aparecer apenas como uma discussão institucional e passa a integrar uma relação comercial bastante concreta.


A conta de energia também faz parte dessa conversa


Existe ainda um aspecto menos sofisticado das finanças sustentáveis: eficiência operacional.


Para uma pequena empresa, reduzir consumo de energia, combustível, água ou matéria-prima pode ser relevante independentemente de qualquer compromisso ambiental público.

Considere um supermercado com equipamentos de refrigeração antigos.


A substituição desses equipamentos pode exigir um investimento significativo. Porém, se o novo sistema reduzir de forma relevante o consumo mensal de energia, existe uma análise financeira bastante tradicional a ser realizada: investimento inicial, economia mensal, prazo de retorno, custo do financiamento e vida útil dos equipamentos.


A sustentabilidade, nesse caso, é uma característica adicional de uma decisão que também pode fazer sentido sob a ótica de custos.


O mesmo vale para uma pequena fábrica que reduz desperdícios de matéria-prima ou para um hotel que melhora seus sistemas de aquecimento, refrigeração e consumo de água.


Por isso, nem todo investimento associado à agenda sustentável precisa começar com uma discussão sobre ESG. Algumas vezes ele começa simplesmente com uma pergunta bastante conhecida pelos empresários: Quanto isso custa hoje e quanto pode economizar depois?


Novas formas de levantar recursos


Outra mudança importante está nas formas disponíveis para financiar empresas e projetos. Além do crédito bancário tradicional, existem mecanismos do mercado de capitais que passaram a alcançar empresas menores.


Um exemplo é o crowdfunding de investimento, no qual sociedades empresárias de pequeno porte podem realizar ofertas por meio de plataformas eletrônicas registradas, obedecendo às regras estabelecidas pela CVM. A antiga Instrução CVM 588 foi substituída pela Resolução CVM 88, que ampliou o regime desse tipo de captação.


Isso não significa que crowdfunding seja apropriado para qualquer empresa ou projeto. Há regras, custos, riscos e responsabilidades que precisam ser avaliados.


Mas sua existência demonstra uma transformação mais ampla: a captação empresarial não está restrita apenas à relação tradicional entre empresa e banco.


Dependendo do porte, do setor e da estrutura do negócio, também podem aparecer alternativas envolvendo recebíveis, fundos de investimento e diferentes estruturas de financiamento.


Onde entra o risco de “greenwashing”?


Quando determinadas características ambientais passam a influenciar investimentos, crédito e decisões de consumidores, surge também um problema: empresas ou produtos financeiros podem tentar parecer mais sustentáveis do que realmente são.


Esse fenômeno ganhou o nome de greenwashing.


Por isso, parte da evolução das regras do mercado tem justamente relação com transparência e comprovação das informações utilizadas para apresentar investimentos, fundos ou operações como sustentáveis.


No mercado de capitais brasileiro, por exemplo, a CVM criou regras relacionadas ao uso de terminologias de sustentabilidade em diferentes produtos e ofertas financeiras. A própria regulamentação vem sendo ajustada ao longo do tempo, inclusive nas regras de divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade.


Para uma pequena empresa, a consequência prática é relativamente simples: quanto mais informações ambientais e sociais forem utilizadas comercialmente, maior tende a ser a importância de conseguir demonstrar aquilo que está sendo afirmado.


Dizer que uma operação é “100% sustentável”, por exemplo, é muito diferente de demonstrar que determinada mudança reduziu o consumo de energia em um percentual mensurável.


Então toda pequena empresa precisa criar uma política ESG?


Não necessariamente.


Empresas possuem tamanhos, atividades, clientes, riscos e necessidades de financiamento muito diferentes.


Uma pequena agência de serviços possui uma realidade diferente da de uma transportadora. Uma oficina possui impactos diferentes dos de um restaurante. Uma indústria que fornece componentes para uma multinacional está inserida em uma cadeia diferente daquela de um comércio que atende exclusivamente consumidores de sua região.


Por isso, talvez a pergunta mais útil não seja: “Minha empresa precisa entrar no ESG?”


Perguntas mais concretas costumam produzir respostas melhores:

  • Existe algum cliente começando a solicitar essas informações?

  • Há investimentos previstos em energia, equipamentos, frota ou infraestrutura?

  • Existem linhas de financiamento específicas para esses investimentos?

  • Alguma exigência de fornecedores ou grandes contratantes está mudando?

  • Temos dados suficientes para comprovar determinadas práticas que já adotamos?


Essas perguntas trazem o assunto para a realidade de cada negócio.


Talvez você encontre esse tema antes de procurar por ele


É possível que muitos empresários nunca precisem estudar detalhadamente o funcionamento de um título verde ou de um mercado de carbono.


Mas os conceitos associados às finanças sustentáveis podem aparecer em situações muito mais comuns. Podem estar em uma proposta do gerente do banco. Em uma linha de financiamento para energia solar. Em um questionário enviado por um cliente importante.


Ou simplesmente em uma conversa sobre como reduzir custos e tornar a operação menos exposta ao aumento de determinados insumos.


Por isso, conhecer o assunto não significa necessariamente aderir a uma tendência ou assumir uma posição sobre sustentabilidade. Significa apenas entender um conjunto de conceitos que já faz parte do vocabulário do mercado financeiro e empresarial.


E esse conhecimento, por si só, já permite fazer algo importante: entender melhor o que está sendo oferecido ou solicitado antes de tomar uma decisão.

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


bottom of page